Contrariamente a los lugares comunes que asolan la escena poética brasileña contemporánea, como las facilidades metalinguísticas e intertextuales, la obra de estreno de Costa apuesta en el diálogo plural con el cine, las artes plásticas, las historias de cómics y la filosofía, referencias tratadas de forma implícita y oblicua, dejando en las manos de los lectores una serie de dudas. Los principales extractos de la entrevista con el joven autor.
ANTIMATÉRIA
Talvez seja impossível explicar
ao cego que o sentido de "to boldfly
go where no man has gone before",
se a legenda antecede todos os movimentos
e não deixa que, clara,
a imagem
se traduza.
Em vão tentaremos descrever a geometria
do espaço,
a cor, a forma e a medida das coisas
que se perdem no feixe
de luz. É sempre abstracto
transmitir a sensação de ver
a matéria desintegrando-se, sem lamento,
e impalpável aparecer em outro lugar.
Poderíamos assusta-lo. com alguma dor.
Mas o universo não cessa. As imperfeições
ultrapassam
os efeitos
e as passagens estreitas mostram que, quan-
do um objecto
envelhece, por dentro
o silêncio supera
o medo.
Isso não quer dizer que expomos nossos corpos ao sol.

ENTREVISTA A ALEXANDRE RODRIGUES DA COSTA
Vencedor do Prémio Cidade de Juiz de Fora de Literatura, ano passado, o poeta belo-horizontino Alexandre Rodrigues da Costa, 32 anos, lança hoje, a partir das 11 horas, na livraria Scriptum, na Savassi, o livro "Objectos Dificeis'; uma edição conjunta da Fundação Cultural Alfredo Ferreira Lage (Funalfa), de Juiz de Fora, e da 7 Letras, do Rio de Janeiro (RJ). Na contramão de lugares comuns que assolam a cena poética brasileira contemporânea, como as facilidades metalinguísticas e intertextuais, a obra de estreia de Costa aposta no diálogo plural corn o cinema, as artes plásticas, as historias em quadrinhos e a filosofia, referências tratadas de forma implícita e obliqua, deixando nas mãos dos leitores uma série de dúvidas. Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista con o jovem autor
"Objectos Difíceis" rompe com dois lugares comuns, presenças quase absolutas na cena poética brasileira contemporânea: a metalinguagem e a intertextualidade. Por que sua poesia promove uma quase recusa desses elementos?
A metalinguagem, como é feita hoje, ela me incomoda, pois tende a cair em lugares comuns, que há muito a literatura já problematizou. E a questão da intertextualidade, de certa forma, esta ligada a isto, no sentido de que a poesia que tende a falar de si mesma de maneira obvia quase sempre tocara nos mesmos temas e autores já consagrados.
Como a poeta e ensaísta Maria Esther Maciel bem definiu no prefacio de seu livro, seus versos são imunes à classificações e estruturas taxonómicas predefinidas. É raro um poeta tão jovem encontrar este lugar próprio para exercer, como bem disse Paulo Leminski, em outro contexto, a liberdade da sua linguagem. De que modo se sente ao ver sua poesia inclassificável e transcendente em relação aos rótulos?
Se ela é inclassificável, é quase que involuntário. 0 que temia era criar poemas óbvios, que ficassem simplesmente no louvor por determinados autores, ou que permanecessem em um sentimento rasteiro. 0 que eu gostei de fazer, em relação a este livro, foi explorar temas e objectos que geralmente são desprezados pela literatura. O poema sobre "Jornada nas Estrelas" é um exemplo. Quis fazer um poema sobre a série, que não fosse apenas laudatório, mas que pudesse usar a série como ponto de partida, em uma reflexão mais profunda sobre a tecnologia e a própria condição humana. As historias em quadrinhos também foram outra tema. Eu não poderia ficar sem falar de "Watchmen", de Alan Moore, que é uma HQ que me marcou profundamente, com toda a complexidade dos personagens, da trama e da própria intertextualidade com a literatura e outras meios.
O próprio título de seu livro já faz referência ao obstaculo da dificuldade. Sua poesia é difícil, ou seria o próprio poético como um todo?
Tinha várias opções de título. Uma delas era "Objectos Sólidos", uma referência ao conto de Virginia Woolf. Daí pensei que o problema não era que estes objectos fossem sólidos, no sentido de manter um distanciamento do sujeito, mas que fossem difíceis realmente, pois quase sempre são desprezados por um olhar desatento, por preconceito, e até pela impossibilidade de os explorarmos através de um outro olhar.
Sua poesia dialoga com o cinema, as artes plásticas, outros liames estéticos. Mesmo assim não é um diálogo explícito e directo, mas feito pelas bordas e entranhas, o que causa um certo estranhamento. Que intenções há por detrás desta postura dialógica peculiar?
A princípio, o livro seria todo voltado para o cinema. Todos os poemas tematizariam a questão do cinema, mas de forma esquiva, oblíqua. Depois foram surgindo outras temas que se agregaram, como as artes plásticas, as histórias em quadrinhos, a música. E ai percebi que o livro poderia ser mais amplo e dialogar de um modo inusitado sem revelar o objecto de maneira explícita. Queria que o leitor ficasse em dúvida se realmente eu estava falando daquele tema ou não. Há uma certa ambiguidade na escrita de maneira que poderia estar falando de mim mesmo, da rainha percepção, ou usando as percepções alheias. Ai entra a questão da metalinguagem, porque o livro é recheado de referências, citações. Só que não quis revelar suas fontes, suas origens.
"Objectos Difíceis" tem pontos de conexão mais explícitos com a prosa, impregnada de poesia de Clarice Lispector e as inflexões filosóficas de Orides Fontela. Que papel a autora de "Hora da Estrela" e "Agua Viva"e a criadora de "'Trevo" e "Rosacea" exercem em seu processo de criação?
A epigrafe do livro, de Clarice, já revela o que eu aproveito da obra dela, que é exactamente esse entrar em contacto com o objecto, tentando dar primazia à percepção, à sensação que tenho dele. No caso de Orides, a influência talvez este já na forma de versificar, que é o explorar a noção de fragmenta e como isso pode alterar o significado de um verso. 0 ponto mais importante, talvez, no contacto com Orides foi o travar conhecimento com a filosofia e chegar a autores que tinha lido muito rapidamente, no caso Martin Heidegger, ImmanuelKant, sobre quem há inclusive um poema no livro.
Um de seus projectos actuais é a tese de doutorado em que analisa comparativamente as obras de Rainer Maria Rilke e Clarice Lispector? 0 que o levou a esta aproximação e qual a principal conexão existente entre os trabalhos desses dois criadores?
O primeiro ponto de contacto foi a noção de quiasma. A principio, em termos linguísticos, o quiasma seria simplesmente apenas uma troca de percepção entre objecto e o sujeito. Por exemplo, o arremesso de bola. O comum seria o sujeito arremessar a bola, mas eu inverto a situação, com a bola arremessando o sujeito. Ai teríamos um quiasma. Tentei explorar isso em uma dimensão fenomenológica, utilizando o conceito de quiasma de Maurice Merleau-Ponty, tentando desdobrar isto na relação de Rilke e Clarice com as artes plásticas. Disso foram surgindo varias questões, como, Por exemplo, a influência de Auguste Rodin e Paul Cézanne na obra de Rilke e da arte abstracta e minimalista nos textos de Clarice.
"Objectos Difíceis" Lançamento do livre de Alexandre Rodrigues da Costa. Hoje, a partir das 11 horas. Na Livraria Scriptum (Rua Fernandes Tourinho. 99. Savassi. Telefone: (31) 3223-1789). Entrada franca.
(*) REPÔRTER
[HOJE EM ?] DIA, Belo Horizonte, Sábado 18/9/2004 Seccion: Literatura.
Foto: JUNIOR C. REIS